Um mês após o início do conflito no Irã, os efeitos da guerra chegaram com força ao campo brasileiro. O diesel, combustível essencial para colheitadeiras, tratores e caminhões, saltou 22,53% em apenas quatro semanas, passando de R$ 6,08 para R$ 7,45 o litro. O valor é o maior desde julho de 2022. E o momento não poderia ser pior: o Brasil colhe soja e arroz em ritmo acelerado.
O receio de novos reajustes e de possível desabastecimento já mudou a rotina de produtores rurais em todo o país. No interior de São Paulo, Azael Pizzolato, produtor rural e diretor da Aprosoja-SP, agiu rápido: triplicou sua reserva de diesel, de 10 mil para 30 mil litros.
O motivo preocupa. Suas quatro propriedades somam cerca de 7 mil hectares entre cana-de-açúcar, amendoim, soja e milho, e consomem entre 5 mil e 6 mil litros de diesel por dia. Com o estoque atual, Pizzolato garante apenas cinco dias de operação em caso de desabastecimento.
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“Estamos em uma fase bem crítica aqui, porque estamos colhendo soja e amendoim, plantando cana, e são essas etapas que mais exigem volume de diesel. E no dia 2 de abril começa a safra de cana. Na colheita de cana, mais de 30% do custo é diesel”, alerta o produtor.
Colheita atrasada, transporte travado: o efeito dominó no agro
O problema vai além do custo. A escassez ameaça diretamente o ritmo da safra brasileira. Os dados da Conab de 23 de março mostram que o Brasil colheu apenas 67% da soja e 34,9% do arroz, índices abaixo do mesmo período do ano passado.
Produtores de milho em sete estados já relatam dificuldade para adquirir diesel. Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás e interior de São Paulo enfrentam o problema, segundo Daniel Rosa, diretor-técnico da Abramilho.
“A soja está com cerca de 70% colhida, e o milho, em torno de 90% plantado na segunda safra. Esse produtor está pagando um frete mais alto do que previa no início da safra. No caso do maquinário para a segunda safra de milho, também há aumento de custo”, explica Rosa.
O impacto ultrapassa a porteira. “Sem diesel, a colheita atrasa, o transporte trava, os custos aumentam. É um prejuízo imediato que não fica só no campo, a gente começa a ver o reflexo na cidade”, alerta Adriane Perin de Oliveira, presidente da Famurs.
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Do campo à cidade: o diesel que encarece tudo
A alta do diesel já pressiona as transportadoras, e o bolso do consumidor sente o impacto. A Associação Nacional de Transportes de Cargas e Logística registra alta média de 10% no frete em todo o país. Em algumas regiões, o aumento chega a 50%.
Em Guarulhos, na Grande São Paulo, a West Cargo já reajustou o frete em 12%. Como resultado, as reclamações dos clientes aumentaram. “Tivemos algumas reclamações de clientes dizendo que o preço está muito alto. Mas o mercado está volátil e tudo vem subindo”, afirma Luigi Rosolen, diretor da empresa.
Isso acontece, sobretudo, porque o diesel responde por até metade dos custos operacionais do transporte de cargas. Dessa forma, cada centavo a mais no litro pressiona diretamente os preços de alimentos, insumos e produtos em geral. Em outras palavras, o que começa no campo termina no carrinho do supermercado.
Um conflito distante, consequências muito próximas
A guerra no Irã pode parecer distante da realidade do produtor rural brasileiro. Na prática, porém, seus efeitos já alcançam as lavouras de soja do Mato Grosso, os arrozais do Rio Grande do Sul e os canaviais do interior de São Paulo.
O cenário exige ação imediata. Quando o diesel falta ou encarece, toda a cadeia sofre: da colheita ao transporte, do armazém ao supermercado. O agronegócio brasileiro, responsável por parcela expressiva do PIB nacional, não pode aguardar que a geopolítica se resolva para reagir.